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História da Catálise no Brasil (*) - Martin Schmal I. INTRODUÇÃO Nos anos 60 a catálise no Brasil era difusa, pontual e restrita. Independentemente e cronologicamente havia quatro lugares bem distintos no país; começou na realidade com o Prof. Remulo Ciola em S.Paulo. Além de professor de Química na Universidade de São Paulo, trabalhava na primeira indústria de refino do país em Capuava, que era originalmente privada e utilizava o processo TCC para o refino de petróleo. Desenvolvia processos petroquímicos no Centro de Pesquisas dessa indústria e iniciou diferentes processos catalíticos nas áreas da petroquímica. As instalações eram em escala de bancada e piloto. O Prof. Ciola também inaugurou o curso de catálise heterogênea na USP, sendo pioneiro no país. O seu laboratório era espaçoso, mas suas experiências eram em química analítica. Um fato novo aconteceu com a criação do Centro de Pesquisas da Petrobras no Rio de Janeiro e a decisão da Petroquisa de concentrar todas as pesquisas neste Centro. Conseqüentemente, o laboratório de processos em Capuava foi desmontado. O Prof. Ciola conseguiu levar uma boa parte dos equipamentos e de unidades para o Departamento de Química da USP, onde então iniciou os trabalhos em catálise. Com sua fábrica de cromatógrafos - “Instrumentos Científicos CG”- abandonou os trabalhos de pesquisa na USP. As pesquisas em catálise no Centro de Pesquisas da Petrobras iniciaram-se com mais força quando foi construído o CENPES na Cidade Universitária do Rio de Janeiro, e particularmente com a chegada do Dr. Leonardo Nogueira, após o seu doutorado com o Prof. Pines da Northwestern University, nos EUA. No início dos anos 60 estas pesquisas eram concentradas na área de petroquímica, apoiando principalmente o pólo das indústrias petroquímicas - “Petroquisa”. Era constituído por um grupo pequeno, onde iniciaram as pesquisas a Dra.Ruth Leibsohn Martins entre outros, simulando processos de FCC. Era um centro bastante fechado, sem interação com outros centros ou universidades. Possuía um curso separado para engenheiros de processos, selecionando os alunos para o curso de desenvolvimento de processos, inclusive em processos catalíticos. Formou-se uma estrutura das mais modernas na atualidade, possuindo quase todos os testes catalíticos e os instrumentos de medidas de caracterização. Logo no início dos anos 70 um grupo, originário do Instituto Militar de Engenharia, fez doutorado na França, junto com Dr. Djega-Mariadassu em Paris. O projeto original foi o estudo de material catalítico para propulsores, mas também para hidrogenação de óleos pesados. Os engenheiros-coronéis Afonso Rodrigues Marques, Gilberto Marques da Cruz e Pedro Paulo Nunes iniciaram suas atividades em catálise. Logo após o Prof. Boudart sugeriu ao IME o Dr. Yiu Lau Lam e logo depois, independentemente, veio o Dr. Roger Frety juntar-se ao grupo. Houve um avanço bastante sensível e os trabalhos do IME foram se desenvolvendo, tanto na parte de caracterização, como nos processos de hidrogenação. O IME tinha e tem acesso a verbas especiais do Ministério do Exército e da FINEP para a compra de equipamentos de grande porte, que nenhuma outra universidade possuía na época. Com a ida do Dr. Yiu Lau Lam para o CENPES e a volta do Dr.Roger Frety para a França restaram poucos. Mas tarde veio o Dr. Jean G.Eon, da França, que também ficou no IME por pouco tempo, transferindo-se a seguir e definitivamente para o Instituto de Química da UFRJ. Nos anos 90 foi contratado o Dr. Victor Luis Teixeira da Silva, que junto com a Dra. Vilma de Araújo Gonzalez levam a catálise no IME até o momento. O terceiro ponto de referência foi o da COPPE, que também se formou independentemente. Inicialmente, o Programa de Engenharia Química concentrava-se em cinética e a reatores, sob a minha liderança, junto com José Luiz Fontes Monteiro. No início dos anos 70 procurávamos contatos com empresas, visando estudos aplicados à cinética e processos catalíticos. Tivemos vários projetos importantes, inicialmente com a CIQUINE para estudar e avaliar catalisadores para hidrogenação de aldeídos, depois com a. COPENE, a NITROFERTIL, a NITROCARBONO e a Petrobras. Tivemos apoio financeiro das indústrias, o que nos possibilitou construir unidades de laboratório e de bancada para os processos catalíticos a alta pressão e temperatura. O sucesso foi muito grande e com isso conseguimos mais projetos que se entenderam nos anos 80. Foram feitos estudos de avaliação de catalisadores, de preparação de catalisadores e já iniciávamos as caracterizações. Mais tarde juntou-se ao grupo Lídia C. Dieguez e Vera Maria M. Salim. Desse grupo saíram vários pesquisadores jovens, entre outros os mais conhecidos Eduardo Falabella Souza-Aguiar, que foi para o CENPES/Petrobras, Victor Luis Teixeira da Silva para o IME, Fabio Bellot Noronha para o INT e Vitor Malmann para UNIPAR. O laboratório de Cinética e Catálise é atualmente um dos mais conceituados do país. II. PRONAQ-PRONAC
Logo no início dos anos 80, quando eu estava na Alemanha para um pos-doc, o Ministro do Planejamento Antonio Delfim Neto, criou um Programa Nacional de Química, cujo coordenador era o Prof. Fernando Gallembeck, professor de química da UNICAMP. Era um programa muito amplo visando o desenvolvimento da química no país, através de programas separados, por exemplo: “Grandes Equipamentos”; “Processos e Produtos Naturais”; “Xistoquímica”; “Alcoolquímica”, ou seja ao total 12 programas e um deles era o de “Catálise”. O Dr. Peter Seidl, coordenador do Projeto de Química no CNPq, procurou-me na época na Alemanha, para coordenar e formar um Grupo de Catálise no Brasil. Após uma série de reuniões em Brasília saiu o primeiro Programa de Química (PRONAQ). O Grupo de Catálise ficou com uma verba relativamente pequena, mas suficiente para comprar um pequeno equipamento, e um pouco de material de consumo para cada laboratório. O grande desafio era formar os grupos, e fazer um projeto integrado em catálise, procurar novos grupos e coordenar tudo com pouco dinheiro. Procurei na época o Dr. Roger Frety e Dr.Yiu Lau Lam para ajuda e elaboração de um plano. Já existiam os grupos da COPPE e do IME e procuramos os grupos da Universidade Federal de S.Carlos, da Politécnica da USP que estavam iniciando suas atividades na Engenharia Química, além do Prof. Mario de Jesus Mendes da Unicamp. Elaboramos um plano com pesquisas básicas em selecionando várias linhas, inicialmente com preparações e testes catalíticos. A idéia era prover estes laboratórios com um teste catalítico e com um cromatógrafo. Escolhemos os 10 primeiros laboratórios e programamos o plano listado a seguir com os recursos do CNPq, por um período de 24 meses.
Foram feitas duas avaliações anuais sobre o andamento dos projetos e de aplicação dos recursos. Houve diferentes tipos de problemas estruturais. Nem todos os laboratórios tinham liberdade de gerir o dinheiro e muitas vezes os recursos não foram aplicados nos laboratórios de destino e outras vezes devido ao atraso e à inflação houve desvalorização e conseqüentemente a verba foi insuficiente para completar a montagem da unidade de teste catalítico. Houve casos em que o dinheiro dava somente para comprar a carcaça do cromatógrafo. Em vários casos houve reorientação do projeto, cujos recursos foram aplicados em pesquisas diferentes das planejadas. No entanto, como era esperado, esse projeto interessou vários outros laboratórios e no segundo plano houve 21 propostas diferentes do país. A verba do CNPq foi insuficiente e tivemos um apoio integral por parte da FINEP. A idéia foi a mesma, equipar os laboratórios com uma estrutura mínima de testes catalíticos e agora com equipamentos para caracterizações, como medidas de áreas superficiais, volume de poros e temas ligados a processos catalíticos fáceis. O mais interessante é que embora o Programa Nacional de Química fosse encerrado, a subárea de catálise teve sucesso, e a FINEP reconheceu que seria útil criar um novo plano separado para a catálise, renomeado PRONAC, com C no final. Este plano recebeu um apoio sensível durante 4 anos e foi bem sucedido. Houve problemas graves com a inflação, mas sem duvida foi o pilar do crescimento da catálise nas Universidades no Brasil. Este plano foi muito importante para que a catálise não ficasse concentrada numa única região do país, e criando assim raízes nas diferentes regiões, principalmente, sul e sudeste e na Bahia. Estava formada a espinha dorsal da pesquisa em catálise no país, que teve reflexo nos diferentes eventos posteriores que irei descrever. Vale salientar, que foi um passo importante para abrir as pesquisas em catálise nas Universidades, antes concentrada na Petrobras. Conseqüentemente, a Petrobras abriu as portas e teve grande influência no andamento e no futuro da catálise no país. III. PESQUISA NAS INDÚSTRIAS No Brasil criaram-se 3 pólos petroquímicos importantes, sendo o primeiro e o mais antigo o Pólo Petroquímico de S.Paulo, da década de 60. Toda a tecnologia foi importada e os processos funcionaram, sendo o catalisador um segredo totalmente desconhecido pelos técnicos. Seguiam-se as recomendações dos fabricantes e não se questionava o catalisador, sua procedência ou performance. O segundo pólo mais moderno foi criado na Bahia, em Camaçari. Era um pólo maior, com infra-estrutura moderna, com novas tecnologias e técnicos bem treinados. Em meados de 1975, e em virtude do contato com o CENPES e também a COPPE, procurava-se estudar melhor o catalisador e selecionar alternativas. Não possuíam laboratórios próprios para esse tipo de estudo. Com o apoio da FINEP foram feitos novos investimentos em laboratórios de pesquisas nas empresas, além de um Centro de Pesquisas independente na Bahia (CEPED), que deveria apoiar todas as pesquisas nas indústrias. Paralelamente foram feitos grandes investimentos e construídos novos laboratórios de pesquisas em várias indústrias do Pólo de Camaçari, como por exemplo: CIQUINE, COPENE, NITROCARBONO, NITROFERTIL, POLIALDEN, etc., preferencialmente para pesquisas em catálise e processos catalíticos, mas também para aparelhar toda a infra-estrutura analítica e plantas pilotos. Nestes laboratórios foram avaliados os catalisadores utilizados pela empresa nos diferentes processos e sem dúvida foram feitos grandes avanços na escolha dos catalisadores e na eficiência dos processos industriais. Tive participação direta na Ciquine, Copene e Nitrocarbono. Uma boa parte desses projetos foi feito em colaboração com os centros de Pesquisas CEPED e CENPES, e de Universidades como a UFRJ (COPPE), UNICAMP, UFBA, UFRGS. Em meados de 80 foram montadas duas importantes fábricas de catalisadores no Brasil, ou seja, a Fabrica Carioca de Catalisadores (FCC) e a Newtechnos. A primeira, por causa da Guerra das Malvinas, em conseqüência da recusa de venda de catalisadores de craqueamento catalítico do hemisfério norte para a Argentina. O Brasil decidiu construir a primeira fábrica de catalisadores para craqueamento catalítico com tecnologia Akso e participação tripartite Petrobras-Akso-Oxiteno. A Fábrica Carioca de Catalisadores FCC, iniciou suas atividades em 1988, com uma produção de cerca de 18 mil toneladas/ano. A segundo fábrica, com tecnologia Degussa e apoio de um Banco, a Newtechnos começou a produzir conversores catalíticos para automóveis em Americana, SP. É uma fábrica moderna com um laboratório de pesquisas, com um investimento de cerca de 100 milhões de dólares. Produz mais de 1,5 milhão de conversores por ano para automóveis. A Oxiteno montou uma fábrica de catalisadores para produção de catalisadores em meados de 80, produzindo óxido de zinco e óxido de prata para consumo próprio e para venda. É uma fábrica com capacidade para fabricar mil toneladas de catalisadores e que possui uma unidade protótipo para testar catalisadores nas condições reais. Possui ainda um laboratório de pesquisas próprio, apoiado pela FINEP. Foi feita uma tentativa para construir uma fábrica de produção de aluminas no Rio de Janeiro. A tecnologia foi desenvolvida pelo CENPES/PETROQUISA. Já tinham sido comprados grandes calcinadores, vasos de preparação industrial etc. Infelizmente, o projeto não deu certo devido a problemas políticos internos. O desfecho foi desastroso e todos os equipamentos foram transferidos ou dispersos em diferentes lugares, quando na realidade há ainda grande necessidade de produzir aluminas, tanto para suporte como para hidrotratamento de catalisadores. No início de 1990 interrompeu-se bruscamente todo o projeto de pesquisas nas indústrias do país, com a eleição e posse do novo presidente, Fernando Collor de Mello. Foi a fase mais frustrante do país. Todos os laboratórios nas indústrias fecharam. A PETROQUISA, holding da petroquímica no país foi fechada. Um centro de pesquisas da PETROQUISA, planejado para funcionar em frente ao CENPES, na Cidade Universitária, RJ, com um custo de 8 milhões de dólares, foi interrompido e até hoje existe o esqueleto sem funcionamento. As indústrias tiveram grande prejuízo. Todas as pesquisas industriais e acadêmicas foram interrompidas e sucateadas. Permaneceu a FCC, a Newtechnos e parte da Oxiteno com recursos próprios, mas também com grandes prejuízos. Foi a época fatal para a pesquisa no país. Destruiu-se toda a formação de pessoal qualificado nesta e noutras áreas. Fecharam-se todas as firmas de projetos e o país regrediu fatalmente para a pior fase industrial e acadêmica. Não houve mais apoio para pesquisa científica nas Universidades e conseqüentemente, sofreram todos os cursos de pós-graduação. Desde esta época não foram mais contratados jovens para os centros de pesquisas no país. IV. CENTROS DE PESQUISA CENPES/PETROBRAS O maior centro de pesquisas em catálise é o Centro de Pesquisas da PETROBRAS/CENPES, que possui a melhor infra-estrutura em equipamentos e pessoal qualificado. Tem uma verba anual de cerca de 5 milhões de dólares para toda a pesquisa, mas boa parte das pesquisas é sustentada pela FCC. Tem um quadro técnico de pesquisadores de alta qualidade, no entanto, há pelo menos 10 anos não contratam jovens pesquisadores. A idade média atual é muito alta. Possuía até 5 anos atrás um setor de catálise que foi desfeito e está incorporado num setor mais amplo. O pessoal foi diluído em diferentes outros setores, mas ainda tem como meta principal desenvolver novos catalisadores para FCC, hidrotratamento e mais recentemente para gás natural. IPT – INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS
Foi criado em 1988 quando o Estado de São Paulo teve grande interesse no desenvolvimento tecnológico. A FINEP aprovou cerca de 1 milhão de dólares e com isto foi feita toda a infra-estrutura da catálise no IPT. Com o apoio de consultoria da JAICA (Japão) foi feito um grande projeto de produção de aluminas. Foi montado um laboratório piloto de preparação de aluminas e uma unidade de teste piloto, sob a supervisão do Eng. Kenji Takemoto. Fui consultor durante vários anos. Resultaram dois projetos importantes: produção de óxido de zinco para a Oxiteno, já em escala industrial e o catalisador de CuCr também para a alcoolquímica. O Programa do Álcool foi interrompido pelo Governo Federal e com a fase de mudança de governo em 1990, quase todas as atividades foram interrompidas. INT – INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA
O Instituto Nacional de Tecnologia, como o nome diz, foi criado para atender à demanda industrial. Começou com um pequeno laboratório e com o apoio da FINEP montou uma nova infra-estrutura para a catálise. Inicialmente contava com o apoio do Dr.J. G. Eon. Ainda tem forte interação com o IRC da França em pesquisas básicas. Nos últimos 10 anos fez grandes progressos e suas principais linhas são: gás natural e oxidação. Atualmente é bastante produtivo, contando com jovens pesquisadores nacionais, provenientes de outras Universidades. O seu quadro atual é composto por pesquisadores competentes, como Dr. Fabio Bellot Noronha e Dra. Lucia G. Appel, sob a direção do Dr. Paulo Prior. Recebe verbas do Ministério da Ciência e Tecnologia principalmente. CEPED – CENTRO DE PESQUISAS DE DESENVOLVIMENTO - BAHIA
Este centro obteve grande apoio da FINEP e do Pólo petroquímico de Camaçari, para formar um laboratório completo e caro na Bahia, Foi feito um investimento de mais de 1 milhão de dólares no CEPED, em meados de 80, e contratados vários jovens pesquisadores. Foram adquiridos grandes equipamentos de caracterização, com o apoio direto do pólo de Camaçari. A coordenação coube ao Dr. Erundi Edelweiss e foi contratado como consultor o Dr. Roger Frety. Mas como o corpo técnico era contratado pelo governo estadual, e sem o apoio das indústrias no início dos anos 90, foi abandonado pelo governo do estado e o CEPED praticamente fechou a catálise. Atualmente, há porém vários novos grupos em catálise na Bahia, principalmente na Universidade Federal da Bahia. Recentemente, as Regiões Norte/Nordeste obtiveram cerca de 1 milhão de dólares (Programa CTPETRO) para montar os laboratórios com equipamentos de grande porte. Coordena o projeto O Dr. Luiz A. Magalhães Pontes, da UNIFACS. NÚCLEO DE CATÁLISE - NUCAT (COPPE/UFRJ)
Foi criado em 1991 na COPPE e com o apoio da FINEP, Petrobras e Oxiteno, montou-se um laboratório com infra-estrutura bem moderna. Além de estudos fundamentais, damos grande suporte a projetos industriais. Contamos com especialistas em caracterização de catalisadores, com analises “in situ” para os processos catalíticos. Este Núcleo faz pesquisas fundamentais nas teses de mestrado e doutorado e trabalhos de desenvolvimento aplicado às indústrias. Suas linhas de pesquisas são: zeólitas, hidrogenações, oxidações, geração de hidrogênio e de hidrocarbonetos líquidos a partir de gás natural, catálise ambiental e química fina. Os programas de trabalho são avaliados por seu Conselho Consultivo, composto por membros e representantes da Universidade, FINEP, FAPERJ, Indústrias e Centros de Pesquisas, que anualmente avaliam o programa de pesquisa do NUCAT. É um projeto tripartite, Universidade - Indústria- Finep e é coordenado desde 1991 por mim, com a participação do conselho técnico-científico: José Luiz.Fontes Monteiro, Lidia.Chaloub Dieguez, Vera Maria Martins Salim, Neuman Solange Resende e Carlos André de Castro Pérez. V. UNIVERSIDADES
As Universidades não faziam catálise até meados de 1970. Neste início, começaram alguns cursos de Cinética e Reatores nos cursos de Engenharia Química e noções de Cinética nos cursos de Físico-Química nos Institutos de Química. No entanto, não havia laboratórios. O programa PRONAC, mencionado anteriormente, foi a semente da catálise, dos cursos e laboratórios nas Universidades. Com o fim do apoio ao PRONAC em 1988, os laboratórios procuraram diferentes apoios financeiros. Conscientes da importância da catálise no Brasil, as indústrias, os órgãos de fomentos governamentais, CNPq, FINEP e as Fundações Estaduais, como Fundações de Amparo à Pesquisa de diferentes estados do país, sustentaram a catálise e felizmente houve um grande salto em número de laboratórios e na qualidade das pesquisas. As universidades obtiveram grande apoio para instrumentar os seus laboratórios com equipamentos de caracterização, e de todos os tipos de processos de interesse para o país. Nos últimos 10 anos, tivemos apoio de projetos especiais, como PRONEX, PADCT, CTPETRO. A maioria dos laboratórios de catálise teve muitos projetos aprovados em concorrência pública em todas as áreas das ciências da engenharia e química em particular. Atualmente há vários laboratórios modernos e é marcante a formação de pessoal de alto nível. O mais interessante é que, embora o processo se iniciasse nas regiões Sul e Sudeste, com o decorrer do tempo, outras Universidades do Norte e Nordeste, e a região central do país, também cresceram fantasticamente. Atualmente, há um grande equilíbrio entre as diferentes regiões do país, desenvolvendo suas próprias pesquisas independentemente e contando com o apoio de indústrias regionais. A maior contribuição para esta interação é sem dúvida a Petrobras. Mas participam também a petroquímica de Camaçari no Nordeste, as indústrias paulistas e do Pólo de Triunfo, no Rio Grande do Sul (Copesul) , interagindo fortemente com os laboratórios de todas as regiões do país, onde há capacitação técnica em catálise. Finalmente, o CNPq contribuiu enormemente com projetos individuais e particularmente o projeto “Universal”, que apóia pesquisadores individualmente em todas as áreas de pesquisa, mas particularmente a catálise foi beneficiada. A formação de pessoal se fortaleceu com estes projetos individuais e ajudou na diversificação da ciência da catálise no país. VI. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CATÁLISE (SBCat)
O ponto de partida para a criação da SBCat foi a organização do 6o Simpósio Ibero-Americano de Catálise em 1978. No simpósio anterior em Lisboa (1976), eu estava presente e com surpresa a Assembléia propôs que eu levasse o próximo Simpósio para o Brasil. Praticamente, ninguém do Brasil havia participado com trabalho antes. Era muito temeroso trazê-lo para o Brasil e havia vários votos contrários, principalmente por causa da ditadura reinante no país. Assim, eu pedi um prazo de 6 meses para responder. O Prof. Portella, presidente do Simpósio, insistiu e apoiado por outros colegas, procurei a Petrobras, principal centro de pesquisas no país. Era chefe da catálise na Petrobras o Dr. Leonardo Nogueira, que a principio achou temeroso realizar um evento dessa natureza no país. A universidade não tinha condições, tanto financeiras como estruturais, nem conhecimento em catálise e o que fazer? Minha idéia foi procurar o Instituto Brasileiro de Petróleo, que já tinha experiência em organizar eventos em petróleo e petroquímica. Com surpresa, fui bem recebido no primeiro encontro com o coordenador geral. O apoio seria dado e naturalmente só o faríamos se pudéssemos contar com a Petrobras. A resposta também foi positiva e realizamos o Simpósio no Rio de Janeiro em 1978. Houve muitas dificuldades para organizar o Simpósio, pois precisávamos de apoio financeiro dos órgãos de fomento do governo, principalmente o CNPq. Obtivemos o apoio para trazer alguns conferencistas. Procuramos apoio das indústrias e obtivemos da Petrobras e a particularmente da FINEP que nos ajudou com as despesas gerais. Pedimos ainda apoio da Academia Brasileira de Ciências para a publicação dos anais, que a principio apoiava, mas mais tarde recusou.. Além disso, tivemos grande dificuldade para escolher os trabalhos científicos, mas conseguimos com o apoio dos jovens formados e da comunidade ibero-americana, em particular da Argentina. Mas o resultado foi extremamente positivo, pela presença de cerca de 200 pessoas, vindos da Espanha, Portugal, Argentina, México e também de outros países da Europa, como França e Itália. Contamos com o presidente da Finep na abertura do Simpósio e com o representante do CNPq no encerramento. A participação dos brasileiros nos trabalhos científicos foi pequena, mais com conteúdo cinético e menos em catálise. Mas o final foi muito descontraído e um churrasco e samba. Todos os convidados, conferencistas ou não, estavam muito satisfeitos. Logo após o Simpósio, fomos nós, Leonardo e eu, mais uma vez incentivados pelos líderes da comunidade ibero-americana e pelos colegas do simpósio a formar uma coletividade de catálise no Brasil. Como? Sem recursos, sem plano, sem pessoal e sem estrutura? As pessoas naquela época eram além do Leonardo Nogueira do Cenpes/Petrobras, Yiu Lau Lam (IME), Glberto Marques da Cruz (IME), Mario de Jesus Mendes (UNICAMP), Ulf Schuchardt (UNICAMP) e o meu pequeno grupo com Eduardo Falabella, José Luiz F. Monteiro, na COPPE. Havia algum interesse da Oxiteno e do IPT. Intuitivamente, pensei que a única solução para dar certo seria se tivéssemos mais uma vez o apoio do IBP. Por quê? Lá já havia vários outros grupos formados neste estilo. Havia o grupo de Petroquímica, que se reunia freqüentemente para realizar eventos ligados à petroquímica e o coordenador era o meu colega Paulo do DEQ da Escola de Química. Conversei com Leonardo Nogueira sobre isto e a princípio ele foi favorável. Marcamos uma reunião com o coordenador do IBP e na última hora o Leonardo não pode ir devido a compromissos no Cenpes e aí pensei é já ou nunca e fui sozinho. Expliquei tudo ao coordenador do IBP sobre a idéia e nossos propósitos. A sua resposta foi positiva, mas desde que ficássemos como um subgrupo da Comissão de Petroquímica. Aceitei, pois poderia dar certo ou não, mas era uma tentativa. Na próxima reunião da comissão de Petroquímica fomos juntos com o pequeno grupo acima mencionado, e o Paulinho, como era chamado, disse que eles nos ajudariam sim, mas que o principal seria convencer a comunidade, tanto na academia como na indústria principalmente, isto é, fazer “proselitismo” segundo suas palavras. Formamos um grupo na subcomissão de Catálise, escolhendo ainda mais alguns representantes da indústria, Oxiteno, Degussa e Petroquisa. Portanto, éramos um subgrupo de 10-12 pessoas. Foi escolhido Leonardo Nogueira como coordenador da Subcomissão de Catálise, liderando o grupo por vários anos. Elaboramos assim o nosso primeiro plano que, inicialmente, organizaria um seminário. Foi decidido que seria no Rio de Janeiro e bianual. O primeiro foi realizado no IME em dois dias, com 20 trabalhos, cujo nível reconheço foi de principiante em catálise, cinética e reatores. Havia trabalhos em catálise heterogênea, química de coordenação e catálise homogênea. Estes trabalhos foram publicados nos anais, com o apoio da gráfica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pelo Instituto Brasileiro de Petróleo. Foi um entusiasmo geral, tanto dos colegas, das poucas indústrias que participaram, do IBP em particular e da nossa subcomissão. Até hoje este seminário, agora congresso, realiza-se a cada dois anos, sem falhar, apesar das dificuldades financeiras, da ditadura e do fracasso nacional do governo Collor. A comissão se fortaleceu e foram estabelecidos os seguintes projetos:
(i) Organizar o seminário a cada dois anos (ii) Organizar cursos de catálise heterogênea e homogênea (iii) Fazer um livro com glossários catalíticos (iv) Fazer um levantamento da catálise nas indústrias (v) Organizar futuros simpósios Ibero-americanos de catálise (vi) Apoiar grupos nos fomentos à catálise no Brasil (vii) Criar regionais de catálise no Brasil
Este plano foi levado adiante progressivamente durante os vários anos de existência da Subcomissão de Catálise do IBP. Foram realizados vários cursos em diferentes regiões do país com a participação dos estudantes e de alguns profissionais da indústria, em torno de 25 alunos por cursos, ministrados por docentes ligados a diferentes especialidades, desde fundamentos de preparação de catalisadores, caracterização e processos. Chegou um momento em que o curso saturou, pois vários departamentos nas Universidades já ofereciam normalmente os cursos. Foi feito um glossário da catálise, publicado pelo IBP, com os fundamentos e definições de termos em catálise. Este serviu de base para muitos cursos. O levantamento da catálise ou processos catalíticos nas indústrias foi mais difícil e demorou muito mais tempo, devido à falta de informações e de sigilos das empresas que não forneciam os dados necessários. Até hoje, não se tem os dados completos. Realizamos mais um Simpósio Ibero-Americano de Catálise no Brasil em 1992, quando era a nossa vez dentro do circuito internacional. O momento não foi oportuno como já mencionei anteriormente na era do governo Collor, mas comprometidos com a comunidade internacional, aceitamos. Não tivemos apoio por parte das indústrias, mas o obtivemos da FINEP, CNPq, CAPES, FAPERJ, e IME e o dinheiro foi suficiente para convidar os conferencistas e alguns palestrantes e realizá-lo no IME. Tivemos a presença de cerca de 200 participantes nacionais e internacionais, inclusive da parte oriental da Europa, do Japão e dos Estados Unidos. Publicamos os anais com os trabalhos selecionados. Foram ainda criados 4 grupos regionais de catálise: Norte/Nordeste, Rio de Janeiro, S.Paulo e Rio Grande do Sul que independentemente organizaram cursos e seminários regionais, apoiados pela Subcomissão de Catálise. Em 1996, quando realizamos o 8o Seminário de Catálise no Rio de Janeiro, um dos mais importantes, pela presença de conferencistas famosos, como o Prof. Gabor Somorjai e o Prof. Prins, entre outros internacionais, surgiu a primeira idéia de formar uma Sociedade Brasileira de Catálise. No 9o Seminário de Catálise em S. Paulo, o número de participantes já era tão grande e o Prof. Dilson Cardoso propôs transformá-lo em Congresso Brasileiro de Catálise. Foram mudanças drásticas e de grande impacto para o futuro da Catálise no Brasil. Já tinha passado a era do governo caótico anterior e havia esperanças, principalmente da comunidade acadêmica, que cresceu assustadoramente em quantidade e qualidade. Foi em 1996 que assumi a coordenação da agora Comissão de Catálise já criada anteriormente, saindo da Subcomissão de Petroquímica. Havia grandes desafios e numerosas dificuldades. Primeiro, por que nem todos eram favoráveis a estas transformações tão drásticas. Em particular, houve grande resistência no próprio Instituto Brasileiro de Petróleo. Sem dúvida, os laços formados com o IBP eram muito fortes e foram positivos, mas a coletividade assim o desejava. Tentamos fazer isto sem ruptura. Programamos uma visita ao coordenador do IBP. A primeira foi frustrada, mas insistimos e na segunda propusemos que o Instituto Brasileiro de Petróleo fosse um membro fundador da Sociedade Brasileira de Catálise, e responsável pela realização dos congressos em catálise. Aceitaram ainda que a sede da Sociedade fosse o próprio IBP. Isto foi aceito pelo coordenador, Dr. Álvaro Leite. A criação da Sociedade Brasileira de Catálise deu um impulso sensacional nas relações com as universidades, as indústrias e a comunidade internacional. Criou-se uma diretoria e as comissões regionais transformaram-se em regiões por grupos: I Região (Norte/Nordeste), II Região (Rio de Janeiro e parte de Minas); III Região (S.Paulo e Paraná e parte de Minas) e IV Região (Rio Grande do Sul e Santa Catarina). Cada uma destas regiões tem os seus coordenadores e liberdade total para realizar eventos, cursos. Isto sem dúvida, aconteceu com muita freqüência em todas as regiões. À diretoria cabia fortalecer, catalisar e balizar as atividades globais no Brasil, patrocinar os Congressos nacionais e internacionais e interagir com as indústrias. De fato, é uma Sociedade que na sua criação conseguiu 6 Empresas como sócios (“sócios coletivos da SBCat”) , que fortaleceram os congressos e os projetos de interação Universidade-Empresa. Além disso, o CNPq contemplou no ano passado (2003) a Sociedade com um apoio para a realização dos próximos congressos até 2007, devido à existência bem sucedida de mais de 20 anos. Uma proeza importante foi colocar a nossa Sociedade na IACS (International Association of Catalysis Societies), que congrega todas as sociedades de países com certo grau de desenvolvimento em catálise. Houve grandes exigências, tais como, publicações constantes em revistas internacionais; interações com as indústrias; realização de congressos internos constantes e participação efetiva nos congressos internacionais. Mais uma vez, aceitei o desafio como Presidente da Sociedade e na primeira tentativa, no último Congresso Internacional de Catálise em Granada em 2000, apresentei a nossa proposta, que foi aceita incondicionalmente e com aplausos. Foi o feito mais importante da etapa internacional da Sociedade. Somos afiliados dessa sociedade desde 2000. A participação dos brasileiros neste Congresso foi muito positiva. Tivemos 26 participantes e um grande número de apresentações. Finalmente, associamo-nos também ao novo estatuto da Sociedade Ibero-Americana de Catálise (FISOCAT) em 2002. Em setembro de 2003, deixei a presidência da Sociedade Brasileira de Catálise. Preside-a agora o Prof. Dilson Cardoso, da Universidade Federal de São Carlos. Mais detalhes encontram-se na página da SBCat: www.sbcat.org/sbcat/historia.php Berlim, Fevereiro de 2004
(*) Artigo publicado no livro "El Amanecer de la Catálisis en Iberoamérica", J. M. D. Esquivel (Coordinador), IMP, México, páginas 45-61, 2004. Copyright © 2005 - 2008 Sociedade Brasileira de Catálise.
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